Artista gaúcha pinta quadros com mulheres mortas por companheiros

Por brasil
PAULA SPERB
COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PORTO ALEGRE

“Era uma menina jogada no chão, morta, rodeada por sangue, com um bebezinho do lado”, descreve Graça Craidy, 65, sobre uma das fotos que inspirou sua série de pinturas exposta no Centro Cultural Erico Verissimo, em Porto Alegre.

A exposição, chamada de “Livrai-nos do mal”, mostra diferentes faces da violência de gênero, através de retratos de mulheres espancadas, estupradas e vítimas de feminicídio – termo correto para o assassinato de uma mulher “por razões da condição de sexo feminino”.

Pintura mostra vítima de feminicídio. Desenho é baseado em foto de caso real – Foto: Divulgação
Todas as pinturas são inspiradas em casos reais de mulheres agredidas. São cinquenta telas no total – trinta delas mostram mulheres assassinadas pelos companheiros.

“Joguei no Google a expressão ‘assassinada pelo marido’ e vieram milhares de cenas com fotos horríveis. Pensei: ‘aqui está a minha verdade’”, relembra Craidy sobre o início do seu projeto, em 2014.A artista salvou as fotos no seu computador, mas “tirou a cor” em um programa de edição de imagens “porque tinha muito sangue”.

Depois de salvas, as fotos em preto e branco serviam como “modelo” para Craidy. Na exposição é possível ver a foto original e a pintura com tinta acrílica sobre papel ou tela.

 

“Num dos casos, o ex-companheiro matou a mulher e deixou um bilhete em cima dela. Estava escrito ‘nem eu nem ninguém’”, recorda.

Sete telas são inspirados no caso do estupro coletivo no Rio de Janeiro de uma adolescente de 16 anos por 30 homens. Nessas pinturas, predominam as cores preto e vermelho, em tons mais sombrios.

Série “Trinta contra uma” foi inspirada no estupro coletivo de adolescente por trinta homens, no Rio de Janeiro

CASADAS APANHAM, DIVORCIADAS MORREMA artista conta que, na medida em que pesquisava sobre violência de gênero, mais sensibilizada ficava com a situação.

Ela espantou-se ao ouvir que mulheres “casadas apanham; as separadas, morrem”. “É horrível pensar que quando uma mulher tenta colocar um ponto final no ciclo de violência acabará morta porque o companheiro acha que é dono dela”, comenta.

Além disso, outro detalhe a comoveu. A artista percebeu que muitos dos casos de feminicídio e agressão ocorrem na frente dos filhos, que acabam traumatizados.

ESTATÍSTICAS

Em 2016, no Rio Grande do Sul, onde a artista vive, 41.118 mulheres foram ameaçadas de agressão, 22.595 foram agredidas, 1.425 foram estupradas e 96 foram vítimas de feminicídio – foram 263 tentativas no total. Os dados são da Secretaria de Segurança do Estado.

Alguns dos casos ocorridos nos últimos anos no RS ganharam notoriedade nacional, como o caso de Barbara Penna, 21, que foi queimada e precisou passar por 224 cirurgias. Os dois filhos de Bárbara foram assassinados pelo ex-companheiro.

Outro caso é o de Gisele Santos, 22, que teve as mãos e pés decepados pelo companheiro. Nem tudo, porém, são más notícias. No RS, uma ONG desenvolveu um aplicativo para celular para que mulheres denunciem aproximação de companheiros violentos.

Foi no Estado também que surgiu o movimento “Vamos Juntas”, que incentiva mulheres andarem em grupo para escapar da violência.

Telas estão expostas no Centro Cultural Erico Veríssimo, em Porto Alegre, até 8 de abril.

Telas estão expostas no Centro Cultural Erico Veríssimo, em Porto Alegre, até 8 de abril

FEMINISTA DESDE SEMPRECraidy estudou pintura em Porto Alegre, São Paulo e na Itália e já realizou diversas exposições. A pintora nasceu em Ijuí, no noroeste gaúcho, e se considera uma “feminista desde sempre”.

Mesmo com a educação conservadora, Craidy conta que sua mãe dizia que “o mundo é das mulheres” e que isso ajudava no seu “empoderamento”.

“Desde pequena eu olhava ao redor e saquei várias coisas: manda quem tem dinheiro, manda quem é homem e manda quem estuda e tem conhecimento. Então, decidi que ia estudar, ter meu dinheiro e mandar em mim”.

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