Assoreado e com seca, rio Madeira trava hidrovia no Norte do país

Por brasil

POR MARCELO TOLEDO, DE RIBEIRÃO PRETO

Enquanto no Sudeste municípios mineiros celebram a volta da água ao lago de Furnas e o benefício ao turismo, e no Nordeste falta água para abastecer cidades, no Norte do país o problema é a navegação no rio Madeira.

Prejudicado pela escassez hídrica da região e assoreado em alguns trechos, o rio Madeira é atualmente o principal entrave do escoamento da produção por meio de hidrovias no Brasil, na avaliação de Raimundo Holanda, presidente da Fenavega (Federação Nacional das Empresas de Navegação Aquaviária).

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A interrupção na hidrovia já gerou prejuízo de R$ 180 milhões somente com o valor dos fretes que deixaram de ser feitos. A estimativa é que 150 mil toneladas de produtos deixaram de ser transportados.“Imagina em grãos e armazenamento o tamanho do prejuízo”, disse Holanda.

No Nordeste, uma em cada duas cidades está em estado de emergência por causa da seca, que chega ao seu quinto ano consecutivo na região.

Já em Minas Gerais, a volta da água ao lago de Furnas, que banha 34 cidades, tem propiciado a retomada de um setor que sofreu muito com a seca dos dois últimos anos, com fechamento de hotéis, extinção temporária da piscicultura em alguns trechos e demissões em bares, restaurantes e marinas.

Segundo o presidente da Fenavega, a estiagem é um dos motivos para o problema no Madeira, mas o rio também é vítima das barragens de Santo Antonio e Jirau.

O rio chegou a ter profundidade de 1,98 m –quando o mínimo para a navegação é 3 m–, o que impede o transporte de grãos e derivado de petróleo.

“No caso dos grãos, paramos totalmente no início de setembro e retomamos, entre aspas, em meados de outubro, com uma viagem de apenas 8.000 toneladas, quando o normal seria transportar 40 mil, em períodos de águas fartas”, afirmou o presidente.

O assoreamento faz com que “praias” surjam no meio do rio e, segundo Holanda, a criação das usinas gerou desvio no curso do rio, com desbarrancamento e perda da corredeira.

“É um rio que já transporta sedimentos naturalmente. Quando ele perde a corredeira, que foi o que ocorreu, decanta bastante essa água. É um rio totalmente barrento, por natureza, mas hoje a água está verdinha, o que mostra o tanto que mudou.”

A previsão é que até o fim de novembro o transporte fluvial volte a ser feito com certa normalidade, após três meses de interrupção –com apenas algumas viagens experimentais, para “manutenção”.

“Já era para ter bastante água, mas não temos, e há também essa questão do assoreamento. Falta investimento e transformar de fato os rios em hidrovias. A do Tietê ficou dois anos parada porque a água foi usada para energia, em detrimento da navegação. O que falta é investimento. Se houvesse, de repente até poderíamos não estar navegando com 40 mil toneladas em cada viagem, mas com 20 mil certamente estaríamos.”

A previsão é que, a partir de 2017, seja feita a dragagem no rio para melhorar as condições de navegação do Madeira no trecho entre Porto Velho (RO) e Manaus (AM).