Ex-seringueiro, “seu” Carlos mora na floresta que plantou no meio de cidade amazônica

Por brasil

FABIANO MAISONNAVE
DE LÁBREA (AM)

Talvez a maior decepção das mal-ajambradas cidades amazônicas seja a falta de verde. As ruas pouco arborizadas, os quintais cimentados e os raros parques públicos parecem estar em guerra com a floresta tropical.

No sul do Amazonas, Lábrea não é diferente –com a exceção da floresta do “seu” Carlos da Costa, 59. “Eu sou o pulmão da cidade”, diz, sem modéstia.

Trata-se do último município da rodovia Transmazônica. Pouco mais de 40 anos após a inauguração da estrada símbolo da ditadura militar, a reportagem da Folha percorreu quase todo o seu trecho amazônico, entre Lábrea (AM) e Altamira (PA). Do total de 1.751 km, pouco menos de 10% estão asfaltados.

A cidade de Lábrea (a 700 km em linha reta de Manaus) é uma das mais novas e destrutivas frentes de desmatamento ilegal da Amazônia, acompanhadas por grilagem e violência. A zona rural do município soma sete assassinatos por disputa agrária em dez anos, segundo a Comissão Pastoral da Terra (CPT).

Criado no mato e longe da escola, o filho de seringueiros não gostou do que viu ao chegar a Lábrea, no início dos anos 1980. Mas, em vez de se acostumar à vida na cidade, ele transformou a sua casa num refúgio verde.

 Carlos da Costa, morador de Lábrea (AM), que criou e mantém um bosque dentro da cidade - Fotos: Lalo Almeida/Folhapress
Carlos da Costa, morador de Lábrea (AM), que criou e mantém um bosque dentro da cidade – Fotos: Lalo de Almeida/Folhapress

Boa parte dos seus últimos 25 anos foi dedicada a plantar árvores amazônicas nas duas quadras que possui, não muito longe do centro. Entre as dezenas de árvores que cercam a casa de madeira estão pés de açaí e cupuaçu, sua principal fonte de renda. Pássaros como tucano são comuns, e, quando escurece, é a vez dos macacos-da-noite aparecerem.

A rotina de Carlos é simples. De manhã, costuma ir de bicicleta até a beira do rio Purus para comprar o peixe do almoço. Depois, se ocupa do bosque. Como a renda é baixa, tem a ajuda dos seus seis filhos para pagar as contas, principalmente o caro IPTU. Apesar das dificuldades, conta já ter recusado oferta de R$ 500 mil pelo seu terreno.

Com fama de excêntrico e bravo, Carlos tem uma relação atribulada com a vizinhança. Não são raras as brigas com quem usa o seu terreno para depositar lixo, que ele recolhe todos os dias. “O plástico é a pior invenção que existe.”

Mas ele também se orgulha de ter transformado a sua casa numa referência. No final da tarde, moradores caminham ou correm em círculos pelo bosque para se exercitar, e um barzinho atrai clientes pelo efeito de ar condicionado das árvores no entorno.

“Se não fosse por mim, essa cidade ia morrer de calor”, diz Carlos. Quem duvida?

“Eu sou o pulmão da cidade”, brinca "seu" Carlos - Lalo Almeida/Folhapress
“Eu sou o pulmão da cidade”, brinca “seu” Carlos – Lalo de Almeida/Folhapress