No Pará, barcos são o meio de transporte mais comum e moradores passam dias dentro deles

Por brasil

THIAGO AMÂNCIO
ENVIADO ESPECIAL A SANTARÉM (PA)

Eles aproveitam para viajar durante a noite. Armam suas redes e passam a maior parte do trajeto dormindo. O percurso pode demorar horas ou mesmo dias.

Os rios da região amazônica são um dos principais meios de locomoção de moradores do interior de Estados como Pará e Amazonas. Seja pela falta de qualidade das estradas, seja mesmo por tradição, as hidrovias têm função essencial naquela região.

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Santarém é um polo econômico regional do oeste do Pará e fica cercada pelos rios Amazonas e Tapajós. Moradores de cidades próximas, como Alenquer, Curuá, Juruti, Óbidos e Oriximiná, precisam ir com frequência ao município por trabalho, estudos, compras, resolver documentações ou buscar tratamento médico. E os rios são as principais vias para se chegar lá.

Embarcações de todos os tamanhos e modelos, de lanchas com capacidade para poucas pessoas a navios que levam até mil passageiros, saem diariamente e não possuem nenhum foco no turismo: a demanda dos nativos é grande o suficiente.

Foi o caso do marítimo Douglas Marinho, 52, que manobra embarcações em Óbidos e teve de ir a Santarém num quarta-feira do início de maio. Em linha reta, as duas cidades ficam a pouco mais de 100 km de distância, mas sem opção terrestre, a alternativa é pelos rios Tapajós e Amazonas, o que leva de sete a oito horas no barco, a depender das condições climáticas.

Assim, Marinho fez um bate-volta entre Óbidos e Santarém e, entre as duas viagens noturnas, ficou 15 horas numa embarcação –esta é, aliás, a rotina dos barcos: chegam geralmente pela madrugada e partem no começo da noite.

Marinho não reclama, porém: já chegou a ficar 12 dias em um barco quando foi a Tefé, no interior do Amazonas, levar bois vivos para serem abatidos em frigoríficos locais. “O boi entra bravo e sai manso”, brinca.

Altair Wai-wai, 21, voltava pela primeira vez para a terra indígena Mapuera-Trombetas, no município de Oriximiná, desde que começou, há três meses, o curso de gestão ambiental na Ufopa (Universidade Federal do Oeste do Pará), em Santarém. “Queria viajar mais, mas não é fácil”, diz.

Como no caso de Óbidos e Santarém, a distância em relação a Oriximiná é pequena –cerca de 150 quilômetros–, mas entre os municípios há o rio Amazonas. Resultado: Wai-wai passou cerca de dez horas dentro de um barco.

TRANSPORTE EMPRESARIAL

O custo para passageiros nesses trechos gira em torno de R$ 50 –Wai-wai, por exemplo, pagou R$ 45. Os valores são mais altos quando o transporte envolve mercadorias.

O químico industrial João Vieira, 70, foi de Óbidos a Santarém levar a caminhonete para uma oficina mecânica. Pagou R$ 600 só para transportá-la em um dos navios, o maior entre os que estavam atracados no início de maio. A embarcação ainda levou outros três caminhões com alimentos (de frango congelado a frutas), carga no porão e perto de mil passageiros, segundo os funcionários.

Mesmo de caminhonete, Vieira não costuma usar a via terrestre. “A estrada é ruim, depende da época do ano. No verão às vezes dá para ir, mas em época de chuva alaga tudo. Você fica no prejuízo, porque o carro estraga”, afirma ele, que lembra ainda ter de pegar uma balsa porque a cidade fica do outro lado do rio.

Dos maiores aos menores barcos, o interior das embarcações é sempre repleto de redes. Cada passageiro tem o direito de pendurar uma, onde passam a noite. Se quiserem uma cama convencional, podem alugar beliches nos “camarotes”, espaço fechado no último andar, cujo preço passa dos R$ 100.

Há também embarcações regulares que fazem trajetos maiores, como para Manaus (dois dias), Macapá (dois dias) e Belém (três dias).

Lanchas menores costumam fazer os percursos na metade do tempo, mas a passagem custa o dobro.

NEGÓCIO PRÓPRIO

O capitão Elias Teixeira pilota barcos há 20 anos. No ano passado, resolveu ter um negócio próprio e se tornou o dono do Manelito II, barco que comprou por R$ 300 mil.

A embarcação tem dois andares, com capacidade para 132 pessoas, que pagam R$ 30 pela passagem de Alenquer a Santarém. Ele faz o trajeto uma vez por semana. No porão, leva mercadorias para comerciantes locais. “É nosso principal meio de transporte”, afirma.

No Manelito, uma passageira sugere que a reportagem vá até Alenquer, para conhecer o trajeto. Após a negativa do repórter –”tenho um voo para pegar amanhã”–, a profecia: “Será? Quem vem ao Pará e toma açaí não volta mais.” Em semana chuvosa, porém, as barracas da orla do rio Tapajós não possuíam açaí para vender.