Lula tem amigos que só esperam benefício em troca, diz presidente de honra do PT gaúcho

Por brasil

PAULA SPERB, COLABORAÇÃO PARA A FOLHA, EM PORTO ALEGRE

Ex-governador do Rio Grande do Sul e presidente de honra do PT gaúcho, Olívio Dutra, 74, afirmou diz que Lula tem amigos que o ajudam apenas esperando algum benefício em troca. Para o também ex-ministro das Cidades, Lula “tem amigos e ‘amigos’, alguns que chegam perto de ti quando tu tem poder”.

Dutra, que não tem nenhum cargo hoje em diretórios do PT, critica também a postura da cúpula petista diante dos escândalos –primeiro no mensalão, e agora, nos revelados pela Operação Lava Jato. Segundo ele, no poder desde 2002, “o partido passou a ter um diálogo com quem não queria outra coisa senão cargos na máquina no Estado, nos poderes”.

Por isso, ele diz que o PT “vai sofrer consequências” nas próximas eleições. “Não temos que pensar que o PT tem que ser perdoado”, disse.

O ex-governador Olívio Dutra - Pedro Belo Garcia/Agência ALR
O ex-governador Olívio Dutra – Pedro Belo Garcia/Agência ALR

Tomando chimarrão e carregando uma bolsa rústica de couro atravessada no corpo, à la Pepe Mujica –o ex-presidente uruguaio–, Dutra falou com a Folha na última quarta-feira (2), antes portanto de a delação do senador Delcídio do Amaral (PT) se tornar pública e de Lula ter sido conduzido pela PF para depoimento na 24ª fase da Operação Lava Jato.

Nesta sexta (4), Dutra falou também à rádio Guaíba sobre a condução coercitiva (quando o investigado é levado para depor e depois liberado) de Lula. Perguntado se achava que o ex-presidente e Dilma eram culpados, ele respondeu: “quem não deve não teme”. E acrescentou: “fico muito triste, mas o projeto político do Partido dos Trabalhadores está manchado”.

A seguir, leia os principais trechos da entrevista dada à Folha:

O PT caiu na vala comum dos partidos tradicionais?
O Partido dos Trabalhadores não nasceu de cima para baixo, não nasceu dos gabinetes. Nasceu no bojo de lutas sociais importantes.

Na medida que o partido foi elegendo vereadores, prefeitos, deputados, senadores e também por quatro vezes o presidente da República, o partido foi se desgarrando de suas raízes fundantes e se flexibilizando na relação com outros setores da sociedade e até com partidos que não tinham a mesma origem nem o mesmo compromisso.

Mas essa flexibilização foi tão grande que os contornos se esgarçaram tanto que o partido passou a ter um diálogo com quem não queria outra coisa senão cargos na máquina no Estado, nos poderes.

Isso explica as atuais alianças do PT?
O PT nunca governou sozinho, buscou aliados nos primeiros embates eleitorais, de centro-esquerda. Já no primeiro mandato do Lula essas alianças tiveram contorno de centro, depois centro-direita e depois uma confusão até chegarmos nos governos de coalizão que revelam uma necessidade de uma reforma política.

Porque os partidos não têm ideologia clara, são mesas de negociação de cargos, de negócios. Nós, portanto, passamos a fazer parte de uma tessitura de uma rede que em vez de qualificar a ação política submete a ação política aos interesses de quem é mais esperto.

Caímos nessa vala comum até com justificativas de “temos que governar, pragmatismo e governabilidade exigem essas alianças”. Isso é feito de cima para baixo. Não se debulha o porquê da necessidade dessas composições esdrúxulas, por que essa flexibilização.

E quem é a principal vítima desse desmoronamento se não a população mais sofrida, mais necessitada do Estado? O PT está em débito, não só com sua base, mas com grande parte do povo brasileiro que nele apostou. É esse o sentido da vala comum.

Lula foi beneficiado com as reformas do sítio em Atibaia e no tríplex do Guarujá?
O Lula é uma figura que merece o respeito da gente. Mas isso não quer dizer que não devamos refletir sobre como devemos conduzir e tratar essas figuras.

[Mas] Um partido como o PT deveria trabalhar para não depender de uma liderança única ou exclusiva ou de apenas um grupo de pessoas. O PT está colocando muito nas paletas do Lula responsabilidades que deveriam ter sido assumidas coletivamente.

Não pode justificar os erros que figuras importantes do partido, em cargos importantes, vêm cometendo. Evidente que não pode. “Não podemos ser cobrados do que fizemos porque os adversários de outros tempos também fizeram”, isso para mim não é argumento.

Um partido como o nosso, com a origem que teve, não poderia ter sido condescendente com as políticas tradicionais do “toma lá dá cá”, do é “dando que se recebe”, do pragmatismo que não se importa muito com os meios contanto que chegue a determinados fins.

Lula não poderia ter evitado se envolver nessa situação?
Não tenho conversado com Lula há algum tempo. Não vai ser aqui, através de uma entrevista, através da *Folha de S.Paulo*, que vou dar conselho para o Lula. Não sou conselheiro.

Mas, pela experiência, sou presidente de honra e não fujo de responsabilidades, não fujo do ideário que defendo. O PT, através de figuras grandes do seu quadro, cometeu erros seríssimos que feriram o patrimônio ético do partido.

Tem sinais evidentes que figuras do partido estão envolvidas com coisas que não são do patrimônio ético e moral do PT. Não se pode contemporizar com elas, com os erros. A direção do partido deve uma autocrítica e até um pedido de desculpa, não só para sua base, mas para a população brasileira.

O Lula tem uma legião de amigos. Tem toda base petista e tem milhares de pessoas não petistas que sempre tiveram nele uma referência e um respeito muito grande por sua história.

Por conta disso, tem amigos e “amigos”, alguns que chegam perto de ti quando tu tem poder. Antes não te davam crédito, não respeitavam, te ignoravam, te estigmatizaram. Mas no momento que vai galgando o poder, vão aparecendo amigos influentes daqui e dali.

O PT abriu a guarda e muitas dessas figuras entraram para o próprio PT. E o círculo de amizades do Lula é além do PT. Por conta disso tem muita gente tentando agradar o Lula, e eu acho que ninguém faz agrados assim sem retorno, sem ideia de tirar algum proveito de uma figura importante como o Lula, influente.

Tenho certeza que o Lula não tem nenhum ato que diga que ele se aproveitou do cargo, que enriqueceu ilicitamente, mas vem sendo vítima de um círculo enorme de “amigos” e amigos mesmo.

Isso se reflete no processo de impeachment da Dilma?
Não temos que pensar que o PT tem que ser perdoado, que vai dar uma boa resposta nas próximas eleições. Não. O PT vai sofrer consequências e que bom que possa tirar lições disso tudo.

A saída não é o impeachment da Dilma e muito menos essa tentativa de desgaste de uma liderança como o Lula. Por trás disso há também o interesse enorme de uma conjuntura que tem medo que o Lula venha ser candidato agora em 2018.

Mas também repito: nada disso pode ser uma justificativa para o PT não fazer a sua autocrítica, não recompor a sua integridade. O PT tem que ser o primeiro a fazer essa autocrítica, a se superar e não reduzir a sua existência à eleição. Eleição se perde ou se ganha. Algumas derrotas ensinam muito mais.

Disse muito bem a presidenta Dilma esses dias: “partido e governo não podem ser a mesma coisa”. O governo tem que governar para a sociedade. Mas a Dilma disputou a eleição com um programa e tinha que estar executando o programa que a elegeu no ano passado.

Não vejo senão a oposição com seu antipetismo disseminando ódio e preconceito, que busca a por qualquer preço, inclusive ameaçar a democracia, desrespeitar o voto popular que elegeu Dilma com mais de 54 milhões de votos. Ela tem que cumprir seu governo e, evidentemente, tem que ser cobrada para executar o programa que a elegeu e não um outro programa.

Vai dar tempo de fazer a autocrítica até a eleição?
Há um anseio muito grande na base partidária com críticas sobre como a direção nacional tem se posicionado sobre o envolvimento de figuras importantes do partido em esquemas de corrupção. Tem uma crítica na base muito grande, alastrada. O PT tem capacidade crítica na base talvez muito maior do que na cúpula.

O senhor defende a expulsão de envolvidos na Lava Jato, como defendeu no mensalão?
As coisas que aconteceram no mensalão e, agora, na Lava Jato, y otras cositas más, são uma excrescência, mas são também uma amostra do que é o exercício de poder numa estrutura de estado facilitadora dessas coisas. Os governos do Lula e da Dilma fizeram com que as instituições se azeitassem no enfrentamento disso.

Bueno, a presença de figuras do PT [nos escândalos] é uma demonstração de que nos contaminamos negativamente no poder.

Quando o Lula se elegeu, a composição do congresso apostou majoritariamente em outra candidatura, outro projeto. Como tem que se relacionar, dialogar? Ganharam cargos, não tinham compromisso nenhum com o programa.

No segundo mandato, em vez de melhorar, piorou. Quando chegou a Dilma a coisa já estava ainda mais degringolada. É a falta de um debate na sociedade para que o eleitor faça a reflexão de que o voto para a Presidência da República não é desgarrado do voto para o Congresso.

Quando o senhor defendeu a expulsão dos envolvidos no mensalão levou um “gelo” da cúpula?
Não tenho nenhum melindre, sou oposição à maioria que dirige o partido hoje. Na ocasião, levantei a questão diretamente quando falei com o [José] Genoíno em um programa de rádio. Falei: “Olha Genoíno, nessas circunstâncias, você faria muito bem se renunciasse. O sujeito coletivo é mais importante que o individual”.

Bueno, evidente que isso criou um mal-estar. Mas é a posição que já defendia antes, defendia na ocasião, defendo até hoje. Dentro do partido [os corruptos] podem se defender, recorrer [da expulsão], mas tem tantas evidências que se derramam contra o partido. O partido não pode ir empurrando com a barriga.

Não acuso ninguém, mas houve condutas que articularam com as figuras mais tradicionais do arrivismo político, da política como um carreirismo, oportunismo para fazer negócios. Facilitaram isso. Envolveram o partido numa conduta política que sempre condenamos e temos que continuar condenando.