Aposentada lamenta o drama do ‘mar de Minas’ após 2 anos de seca

Por brasil

POR MARCELO TOLEDO, EM AREADO (MG)

Por mais de cinco décadas, todos os dias ela acordava, abria as janelas de casa e se deparava com a imensidão do “mar de Minas”, como é conhecido o lago formado pela hidrelétrica de Furnas, que banha 34 municípios mineiros.

Nos últimos dois anos, no entanto, o cenário visto pela aposentada Ana Maria de Oliveira Santos, 74, ao acordar é desolador. Onde antes havia muita água, hoje só há mato, que é usado como pastagem. O que restou do “mar” é visto a quilômetros de distância.

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O recuo da água registrado com a seca recorde dos últimos anos fez com que ao menos 20 dos 34 municípios banhados pelo lago de Furnas sofressem queda no turismo, segundo a Alago (Associação dos Municípios do Lago de Furnas).

Moradora de Areado, uma das cidades em que o turismo foi mais atingido, a aposentada relatou saudosa, com o semblante triste, o período em que a água esteve mais presente em seu dia a dia.

“Aqui [aponta o local] havia uma igreja, em homenagem a São Pedro, que acabou desbarrancando e foi levada pela força das águas, de tanta água que existia. Hoje o que vemos é nada, nada”, disse.

Sua família era dona de uma área que foi desapropriada para ser alagada pela represa da hidrelétrica. A casa em que mora desde a década de 1960 fica às margens do lago.

De origem rural, até hoje a família está no ramo, e tem 40 cabeças de gado que se alimentam do pasto em que se transformou o lago na vizinhança.

“Cheguei aqui em 1962, quando me casei, e não saí mais. Já vi esse lago várias vezes vazio, como em 2001 [crise do racionamento de energia elétrica], mas ele logo enchia de novo. Mas agora já faz mais de dois anos e nada de a água voltar”, disse.

As obras da barragem de Furnas, situada em São José da Barra, foram concluídas em 9 de janeiro de 1963, segundo a empresa.

Apesar de dizer-se desesperançosa, Ana Maria torce para que a água volte, para que sua propriedade não se desvalorize ainda mais.

“O preço caiu para um terço do que valia. Quem construiu casas para vender está tendo muito prejuízo por aqui”, disse ela, sem revelar valores.

A desolação da aposentada não é única. Com a crise hídrica, embarcações estão às margens do lago, sem poder navegar. Os píeres parecem não fazer sentido onde estão, a quilômetros de distância da água hoje.

A represa da hidrelétrica está 12 metros abaixo do nível máximo. Segundo dados do ONS (Operador Nacional do Sistema Elétrico), no último dia 26 o reservatório estava com 23,36% de volume de água.

O índice é superior ao do mesmo dia do ano passado, mas bem inferior ao registrado há cinco anos, por exemplo. Enquanto na mesma data em 2014 só havia 10,31% de água no reservatório, em 2010 o índice era de 51,57%.

A Folha esteve em seis localidades banhadas por Furnas: Alfenas, Areado, Alterosa, Carmo do Rio Claro, São José da Barra e Fama.

Em todas há problemas no turismo, com pousadas fechadas, restaurantes vazios e empresas que alugam embarcações com as atividades paralisadas.

“A represa já ficou até mais seca do que está hoje, mas ela logo retornava ao volume normal. Como faz muito tempo que está assim, ninguém mais vem aqui”, disse Joaquim Constantino, 44, dono de restaurante há 12 anos às margens da represa, em Carmo do Rio Claro.

SORTE

Embora os turistas tenham se tornado espécie rara em localidades banhadas por Furnas, um pescador encontrado pela reportagem disse se sentir animado com a situação.

“É triste ver o lago dessa forma, o nível baixou demais. Mas, pelo menos, estou conseguindo pescar bem. Em um dia, consegui mais de 30 quilos”, disse o corretor imobiliário Milton de Angelis da Silva, 40, de Taubaté. Uma vez por mês ele vai a Furnas pescar.