Conheça quatro histórias da crise na cidade campeã do desemprego no país

Por brasil

PATRÍCIA BRITTO, DO RECIFE

A criação de um complexo industrial em Ipojuca (PE), a partir de 2008, trouxe alento aos negócios do comerciante Ivan Antônio da Silva, 40.

O polo petroquímico atraiu milhares de trabalhadores para obras da Refinaria Abreu e Lima e da Petroquímica Suape, ambas da Petrobras, e do estaleiro Atlântico Sul, que constrói plataformas para a petroleira. Com eles, a economia local se aqueceu bastante.

Sete anos depois, a crise econômica e os efeitos da Lava Jato, operação que investiga corrupção na Petrobras, mudaram os rumos de Silva e de muitos outros moradores de Ipojuca.

Cidade a cerca de 50 km do Recife, o município é campeão em desemprego no país, conforme reportagem da Folha deste domingo (1).

O comerciante Ivan Antônio da Silva em sua farmácia - Foto Léo Caldas/Folhapress
O comerciante Ivan Antônio da Silva em sua farmácia – Foto Léo Caldas/Folhapress

Silva é proprietário de oito salas comerciais. Com a crise, ele se viu obrigado a reduzir o valor cobrado pelos aluguéis, de R$ 900 para R$ 600. Ainda assim, seis salas continuam desocupadas há quase um ano.

Antes, elas eram alugadas para escritórios de empresas que prestavam serviços para a Petrobras, como a OAS.

No piso inferior dos escritórios, uma farmácia que ele administra também enfrentou uma redução nas vendas de 40%. Resultado: dos 18 funcionários, precisou demitir dois e avalia fazer mais cortes.

“A cidade está muito parada, então as pessoas estão tentando ir pra outras cidades ou acabam entrando na informalidade. A gente tenta segurar o máximo que dá”, diz.

A seguir, conheça três outras histórias de pessoas que enfrentam a crise em Ipojuca.

Seu Nilton e Dona Branca

Em funcionamento há 30 anos, a Pousada da Branca é uma das poucas hospedagens no centro de Ipojuca. Seus 22 quartos eram considerados suficientes para uma cidade onde o turismo se concentra a 17 km do centro, na praia de Porto de Galinhas.

Mas em 2010, Seu Nilton e Dona Branca –como são conhecidos os proprietários Anilton Alves, 62, e Josefa Bezerra, 72– se surpreenderam com um movimento nunca antes visto na história da pousada.

Eram hóspedes de outros Estados que iam a Ipojuca para trabalhar em obras da Refinaria Abreu e Lima e do Estaleiro Atlântico Sul. As hospedagens duravam em média de 15 dias a três meses. Com tanta gente nova na cidade, os 22 quartos já não eram mais suficientes.

O casal Anilton Alves e Josefa Bezerra, em Ipojuca - Léo Caldas/Folhapress
O casal Anilton Alves e Josefa Bezerra, em Ipojuca – Léo Caldas/Folhapress

“O povo ficava esperando vaga, ligava pra saber se já tinha desocupado. Isso aqui vivia cheio”, diz Dona Branca, explicando que a lista de espera era sempre grande.

 

Vendo aí uma oportunidade para expandir os negócios, o casal decidiu ampliar a pousada para 58 quartos. Por pouco mais de dois anos, ainda conseguiram aproveitar o boom das obras de Suape.

Desde novembro do ano passado, contudo, o movimento começou a cair, acompanhando a desmobilização dos canteiros de obras da cidade. Hoje em dia, a taxa de ocupação não passa de 30%, explica Seu Nilton.

Como consequência, oito dos 12 funcionários foram dispensados. E os cortes podem continuar, avaliam os empresários.

Salmir Soares Cândido, 36

O comerciante Salmir Soares Cândido, 36, sente os reflexos da crise de Ipojuca em sua loja de moda feminina. Segundo ele, as vendas caíram pela metade nos últimos 12 meses.

O comerciante Salmir Soares Cândido - Léo Caldas/Folhapress
O comerciante Salmir Soares Cândido – Léo Caldas/Folhapress

Ele conta que só conseguiu manter sua loja porque negociou uma redução de 50% no valor do aluguel. Mesmo assim, precisou demitir dois dos quatro funcionários.

“Outros comerciantes também conseguiram baixar o aluguel. Todo mundo está sem dinheiro, os donos aceitam porque se deixar fechado dá prejuízo: é condomínio, IPTU e manutenção pra pagar”, disse.

Dewson Rodrigues Pereira, 29

A criação de um complexo industrial em Ipojuca (PE), a partir de 2008, levou a Dewson Rodrigues Pereira, 29, esperança de uma vida melhor do que a que ele levava até então como trabalhador de uma usina de cana-de-açúcar.

Com o início das grandes obras em Ipojuca, Dewson conseguiu uma série de contratos temporários em empresas que prestavam serviços para construção da Petroquímica Suape e da Refinaria Abreu e Lima, ambas controladas pela Petrobras.

Dewson Rodrigues Pereira, em Ipojuca - Léo Caldas/Folhapress
Dewson Rodrigues Pereira, em Ipojuca – Léo Caldas/Folhapress

Há um ano, trabalhava como caldeireiro na construção da refinaria e entrou na leva de 1.500 funcionários demitidos de sua empresa, ainda antes da conclusão da obra. Hoje dos dois trens de refino, apenas um foi concluído, mas ainda não opera em sua capacidade máxima.

“Trabalho tem muito lá, o que faltou foi dinheiro”, diz ele. Desde então, passou a trabalhar como mototaxista, mas viu sua renda cair de R$ 3.100 para cerca de R$ 1.000.

Teve que fazer ajustes para conseguir sustentar a mulher, Thalya do Nascimento, 18, e a filha Ana Clara, 2. “Cortei shopping e lazer, hoje a gente vive no básico mesmo”, disse ele. “Se normalmente eu comprava dez quilos de arroz, agora compro cinco. A gente vai moderando”, conta a mulher.

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