Um território italiano no litoral norte

Por brasil

POR JULIANA COISSI, ENVIADA A SÃO SEBASTIÃO (SP)

A regra é clara: o italiano é a única língua aceita em um certo trecho de mata atlântica em São Sebastião, no litoral norte paulista.

“E por que falar português?”, questiona, em tom de brincadeira, André Rossi, 58. Filho de italianos, o biólogo parece estender sua ascendência europeia às onças-pardas, corujas, tamanduás-bandeiras e macacos-pregos que trata quase como filhos.

Assim como uma família, todos vivem no sítio comprado por Rossi nos anos 90 e que ele decidiu tomar por casa e razão de vida: o Cetas (Centro de Triagem de Animais Silvestres), mantido pela fundação que criou, a Animalia.

O espaço é a única referência para a fauna silvestre de todo o litoral norte. Como a Folha mostrou neste domingo, há 13 Cetas no Estado, mas a maioria está lotada ou sem recursos. A PM Ambiental, que resgata animais feridos e apreendidos, por vezes tem dificuldade de encontrar vaga.

“Che paura! Non succede niente!” Em tom carinhoso, como uma mãe conversando com seu bebê, Rossi pede a Neo, 7, para se aproximar e não ter medo, porque nada vai lhe acontecer. A onça-parda macho, que o acompanha com o olhar, obedece e recebe afagos.

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Em outro recinto, um cateto (espécie de porco silvestre), cismado com a presença da câmera fotográfica da equipe da Folha, demora a atender aos apelos de Rossi. Mas logo deita ao lado do biólogo e se deixa ser acariciado.

Além de língua oficial, a Itália também inspira o nome de alguns dos bichos que vivem no espaço. Elettricista é um gato-do-mato que chegou muito pequeno, com 7,5 cm, dentro de uma caixa de sapatos. Ele brincava com o fio da manta térmica na qual veio embrulhado —daí o nome.

Os irmãos Scilla e Caribdi, onças-pardas macho, foram batizados com o nome de duas figuras da mitologia grega que remetem ao estreito entre a Sicília e a Calábria, no território italiano.

‘OS INVIÁVEIS’

Os olhos azuis vivos de Rossi brilham ainda mais quando ele conta em detalhes a história de seus animais. A maioria começa com um trágico epílogo: chegaram ainda filhotes órfãos, porque a mãe foi morta a tiros ou atropelada. Se não estão feridos, na maioria dos casos foi trazida do Norte e Nordeste por agentes do Ibama (órgão federal) porque eram criados ilegalmente em cativeiro.

O biólogo tem carinho em especial pelos que chama de “os inviáveis e os não destináveis”. São os animais principalmente de grande porte —onças-pardas, jaguatiricas— que, por não terem aprendido com a mãe a caçar sozinhos quando filhotes, já não podem sobreviver na natureza. Outros não conseguem voar ou andam com dificuldade porque estão velhos ou têm fraturas no quadril e nas patas.

Alfa, onça-parda macho de 13 anos, de Vilhena (RO), foi o primeiro animal a chegar à entidade, em 2003. Seu rosto está no logotipo estampado na caminhonete da instituição.

O terreno do sítio na Animalia é inclinado, e Rossi aproveitou a característica para beneficiar os animais. Os recintos são construídos no meio da mata com diversos troncos de árvores atravessados, de modo que os animais possam pular e exercitar a musculatura —ainda que estejam confinados em cativeiro.

O Cetas conta com tratadores, que recebem e selecionam os alimentos. Mas, no caso dos felinos, o biólogo optou ele mesmo por alimentá-los. “Prefiro eu ir ao recinto, porque eles já estão acostumados comigo, não ficam estressados. De perto, posso olhar o comportamento, vejo se estão bem e até reparar se tem algum sinal de parasitose, por exemplo.”

Ao se aproximar dos felinos, explica, o biólogo imita sons do que seria uma mãe com o seu filhote. E as onças respondem ao comando.

A intimidade que Rossi estabelece com os bichos, ele mesmo admite, não é bem vista entre seus pares, porque seria uma forma de domesticação e de fazer o bicho perder seu lado selvagem.

Mas Rossi logo se defende: “Se eu tiver a confiança do animal e conseguir me aproximar de um cateto, por exemplo, posso aplicar medicação sem ele ter que passar pelo estresse de ser sedado”.

O recurso mensal de R$ 50 mil cessou em outubro de 2014, com o fim de um convênio com a Petrobras, como contrapartida por uma obra da estatal na região.

Hoje, com 80 animais (o espaço já chegou a abrigar 660), o Cetas vive de doações. São necessários R$ 7.000 para os custos fixos, como alimentação e vacinas. O site da instituição aceita doações: www.animalia.org.br