Preso por engano na Guerrilha do Araguaia aguarda indenização

Por brasil

O lavrador aposentado Eduardo Rodrigues, 89, afirma ter sido a primeira pessoa presa na operação do regime militar contra a Guerrilha do Araguaia, em 1972, e garante: não era guerrilheiro.

Quarenta e três anos depois, ele pode ser indenizado pelo governo federal. Em abril deste ano, a Comissão da Anistia do Ministério da Justiça pediu que a pasta indenize o lavrador e a família. Eduardo aguarda que Brasília assine a decisão.

Torturado, ele ficou preso cinco meses, somando as duas vezes que foi detido.

Depois de solto a primeira vez, ainda enfrentou ainda uma tragédia familiar. Seus filhos encontraram uma granada. Como não conheciam o artefato, manusearam o objeto e ele explodiu. Um filho foi morto e o outro acabou mutilado.

Deflagrada pelo PC do B a partir do final dos anos 1960, a Guerrilha do Araguaia foi um dos movimentos contrários à ditadura no Brasil de 1964-85.

Ao menos 70 militantes e moradores da região desapareceram e oito militares morreram –segundo a Comissão Nacional da Verdade–, em um dos episódios mais violentos do período.

Os guerrilheiros queriam convencer os camponeses da região a aderir ao movimento. A partir de 1972, o governo mandou cerca de 10 mil homens das forças militares para reprimir o movimento. Os guerrilheiros acabaram derrotados em 74.

Leia a seguir depoimento dado pelo lavrador ao blog Brasil.


(…) Depoimento a
JOSÉ MARQUES
DE BELÉM

Eu nasci em Carolina, Maranhão, morei em Goiás e, em 1939, minha família mudou para a região de Marabá.

Trabalhei com tudo. Em garimpo no rio Tocantins, em castanhal e dois anos na borracha. Na época em que fui preso, eu trabalhava na roça, mexia com cana.

O lavrador aposentado Eduardo Rodrigues, 89 - Foto Yane Ulisses de Freitas
O lavrador aposentado Eduardo Rodrigues, 89 – Foto Yane Ulisses de Freitas

Morava no lugar havia 13 anos quando chegou um pessoal diferente [os guerrilheiros, em fins dos anos 1960, que tentaram convencer os camponeses a lutar ao lado deles]. Compraram uma terra dos índios e ficaram.

Esse pessoal trabalhava contra o governo, e o governo não gostou. Eu tinha mais de 20 anos lá quando mandaram o Exército, que encaixou o pau em todo mundo.

Todo mundo sofreu, tanto os guerrilheiros quanto os camponeses. Todo mundo da região foi preso, torturado.

O primeiro preso da região fui eu, que não tinha nada a ver com esse pessoal.

Os guerrilheiros moravam perto de mim e, quando o Exército chegou lá, eles já tinham ido para a mata. Eu estava em casa trabalhando.

Eles [os militares] chegaram em casa procurando [os guerrilheiros]. Eu estava com minha família. A mulher e os filhos –tenho muitos filhos, são dez.

O Exército queria saber se eu sabia da vida dos homens, o que eles eram, o que não eram, mas eu não sabia dizer. Me chamavam de informante. Mas eu não sabia informar nada, porque não sabia de nada.

Fiquei muito tempo preso. Fiquei um tempo em uma cadeia em Marabá, depois eu era levado pra outra cadeia, depois para um quartel. Fiquei tombando. Não lembro quanto tempo.

Em um presídio de Belém, fiquei preso durante 29 dias, foi o maior tempo. Eles me torturaram. Tiravam minha roupa, me deixaram dormir pelado na muriçoca, no chão, comendo feijão gelado com farinha. Só não cheguei a apanhar, isso não.

Na cadeia, eu ficava imaginando que estava lá enquanto tocavam fogo na minha casa, acabando com tudo. Eu tinha preocupação demais com minha família.

Me liberaram em Belém, dizendo que eu já tinha cumprido a minha missão. Quando voltei, a guerrilha ainda não tinha terminado, demorou de terminar. Só pra mim já tinha acabado. Ainda estavam prendendo gente na mata, procurando gente e estava difícil de achar.

MORTES NO CAMPO

Sabe quantos mataram na mata? Trinta e seis guerrilheiros [camponeses que participaram da guerrilha]. Muita gente que conheci foi morto.

O Exército queimou a casa dos guerrilheiros e largou uma granada dentro, que meus filhos acharam.

Eles não conheciam granada, mexeram e ela acabou matando o meu adotivo e mutilando outro filho meu.

Foi um dia de agonia. Mexendo com meu filho morto e o outro todo quebrado.

Peguei um barco e saímos do Araguaia de barco.

Eu perdi minha terra, que era a mãe da família, e perdi tudo o que eu tinha. Deixamos tudo para trás.

De lá eu saí pra cidade. Fui trabalhar com nada, porque eu só sabia trabalhar de roça. Minha mulher é que foi trabalhar, fazer bolo pra vender.

Eu fui para Belém com o morto e o doente, fiquei três meses lá cuidando dele.

Já está com mais de 40 anos isso e nós temos passado muita necessidade. Nós merecíamos o dinheiro [da indenização] há muito tempo. Hoje meu processo já está encaminhado em Brasília.

Depois de tudo, fui pra outra região e continuei trabalhando com roça. Só não trabalho mais porque, agora, estou velho demais.