‘É uma mágoa muito grande’, diz professor do PR que levou bala de borracha no rosto

Por brasil

POR ESTELITA HASS CARAZZAI, DE CURITIBA

O professor Lúcio Roberto Vaisvila, 58, viajou nove horas de ônibus para participar dos protestos contra o projeto que mudaria a previdência dos servidores públicos do Paraná. Docente na rede estadual há 18 anos, Vaisvila leciona em Cianorte, no norte do Paraná. E quase perdeu a visão no confronto com policiais na última quarta (29).

“Nunca pensei que pudesse ser tratado dessa forma”, disse ele ao blog, na sexta-feira (1º). “A gente forma o ser humano, trabalha para a transformação dele, e acaba apanhando desse jeito.”

Ele levou um tiro de bala de borracha na lateral no olho. A bala arrebentou seus óculos, mas não chegou a descolar a retina, nem estourar o globo ocular. “Foi por sorte.”

Estudantes e professores participam de ato na Assembleia Legislativa do Paraná e no Palácio do Governo, em Curitiba - Paulo Lisboa - 30.abr.2015/Brazil Photo Press/Folhapress
Estudantes e professores participam de ato na Assembleia Legislativa do Paraná e no Palácio do Governo, em Curitiba – Paulo Lisboa – 30.abr.2015/Brazil Photo Press/Folhapress

O professor afirma que estava muito longe da área do confronto e diz que ao seu redor não havia ninguém armado com paus ou pedras, como argumenta o governo de Beto Richa (PSDB).

Leia o relato dele abaixo.

*

Eu sou professor desde 1997. É o que eu mais gosto de fazer na vida. Fui para Curitiba na segunda à noite, e na terça acampamos no Centro Cívico [em frente à Assembleia Legislativa do Paraná].

Já na terça-feira (28), teve um enfrentamento, porque não deixavam passar o caminhão de som. Perto do que aconteceu depois, foi tranquilo.

Na quarta (29), a gente foi almoçar e depois voltou para acompanhar a votação [do lado de fora da Assembleia]. Eu não estava muito próximo, bem em cima da grade [do isolamento policial]. Estava distante. Nós estávamos reunidos, conversando. Estávamos muito preocupados, porque aquilo era muito grande, o aparato policial era enorme.

Foi quando começou a cair bomba [de gás] na gente. As bombas caíram igual chuva.

No primeiro momento, eu corri para o acampamento, para ver meus colegas. Quando eu cheguei ali, não tinha mais ninguém. E as bombas caindo. Uma professora de idade correu atrás de uma árvore e não conseguia mais se mexer. Caía bomba do lado dela. Eu carreguei ela pro outro lado. Tinha um senhor de idade ali também, perdido.

Depois de um tempo, começou todo mundo a falar: vamos resistir, vamos resistir, vamos voltar. A indignação era grande. Todo mundo falando: por quê? Pra quê? Pra que isso tudo? Nós só queremos preservar nossos direitos. Nós somos professores, não somos bandidos.

Aí, nós tentamos voltar. Fomos voltando lentamente. Nisso é que eu levei o tiro [de borracha]. Eu estava longe da Assembleia, perto das barracas. O tiro veio do lado esquerdo, na lateral. Eu levei o impacto, agachei e caí. Aí não enxerguei mais nada.

Chegou um rapaz e eu perguntei: como está meu olho? Está sangrando? Eu não conseguia me localizar, era fumaça pra todo lado, eu com lenço na boca. Eu já não estava enxergando nada, nada, nada. Corri pro acampamento, abri um copinho de água e joguei no olho, tentei mexer nele. O meu medo era que tivesse furado o globo ocular. O meu amigo não conseguia ver. Aí a gente atravessou todo aquele campo de guerra pra achar uma ambulância.

O oftalmologista disse que não houve perfuração do globo ocular. Estou tomando anti-inflamatório de três em três horas. Ainda vou ter que fazer um mapeamento da retina e uma tomografia do fundo do olho, para checar se está tudo bem.

Ainda não está muito legal. Não consigo enxergar nitidamente. O olho está todinho roxo, inchado, dilatado. Aquele branco do globo ocular está vermelho.

[Sobre manifestantes que revidaram os ataques com paus e pedras] Eu não vi nada, nem eu, nem meus companheiros. Se isso aconteceu, foi algo pontual. E se houve, então que [os policiais] pegassem eles. Tinha um monte de policiais infiltrados no protesto. E eles não localizaram esse pessoal? Por que não pegaram eles? Por que foram bater em professor?

Tinha pessoa com mais de 70 anos ali, professores aposentados. Você acha que essas pessoas vão agredir alguém? Não tem cabimento falar isso.

Dentro de mim tem uma mágoa muito grande. É impossível alguém apagar isso de mim. Ver um Estado que eu ajudo a construir me agredir… É a mesma coisa que levar uma apunhalada nas costas. Isso não vai apagar nunca.

Nós simplesmente estávamos defendendo nossos direitos.