Pontalete e as pontes que JK ergueu e depois inundou

Por brasil

JULIANA COISSI, EM TRÊS PONTAS (MG)

Pontalete, distrito da cidade mineira de Três Pontas, estava em festa naquele início dos anos 50. O vilarejo que se formou na confluência dos rios Sapucaí e Verde, como uma ponta –daí o nome do local–, preparava-se para receber o mais ilustre mineiro da época.

O então governador Juscelino Kubitschek, em pessoa, inauguraria duas pontes. Uma delas, sobre o rio Verde para ligar o distrito ao município de Elói Mendes, e a outra atravessando o rio Sapucaí até a cidade de Paraguaçu.

Era mais uma obra para o progresso do já avançado distrito. Surgido no final do século 19, Pontalete construiu sua riqueza a partir do café produzido na região. As pontes serviriam para impulsionar ainda mais a comercialização do café.

Libélia Rodrigues Alves Guilger, 76, era uma jovem de 15 anos quando se juntou aos demais colegas do grupo escolar escolhidos para recepcionar o governador na inauguração das obras.

Com bandeiras brancas nas mãos e bem vestidos com suas melhores “roupas de missa”, eles se dispuseram ao longo da ponte. Kubitschek passou por eles, atravessando a passagem. Estava cercado das autoridades da região e recebido ao som da banda municipal.

O homem alto chamou a atenção de Libélia, na verdade, pelos pés. “No Pontalete, todo mundo tinha o sapato cheio de terra. Eu fiquei impressionada com aquele sapato de verniz preto do Juscelino, brilhando. Não conseguia olhar para mais nada”.

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DE ESPINGARDA NA MÃO

Kubitschek criou, Kubitschek alagou. Dez anos depois, o desalento atingiu o Pontalete. Ninguém queria acreditar nos boatos que corriam de que parte do distrito, assim como outras cidades mineiras, ficaria debaixo da água.

Tudo em nome do progresso: a inundação era necessária para criar o reservatório de Furnas, para geração de energia elétrica. Ideia do então presidente Juscelino Kubitschek.

Para a inundação, as pontes deveriam ser dinamitadas, a fim de não impedir a passagem das balsas. O pai de Libélia, o português José Rodrigues, pegou sua espingarda e articulou com um grupo de moradores a resistência à demolição.

O protesto foi tão contundente, contam os moradores, que a ideia da destruição foi abortada. As pontes permaneceram, e parte do leito foi cavado mais fundo para permitir a travessia da balsa.

PROFECIA

Em 1963, durante a discussão para salvar a ponte, o português José, de arma na mão, sem saber, lançou uma espécie de profecia, que décadas depois se cumpriria.

“Os japoneses diziam: ‘O que vocês querem com essa ponte? Ela nunca mais vai aparecer de novo'”, recorda Libélia. “E meu pai: ‘Eu não acredito. Um dia pode acontecer de dar uma seca forte e as pontes terão serventia para o povo passar'”.

De fato, a estiagem que castiga o sul de Minas neste ano praticamente esvaziou o trecho do reservatório que banha o Pontalete. A baixa do leito trouxe à tona as ruínas das pontes.

Libélia, aquela moça que inaugurou uma das pontes com Juscelino, decidiu visitar as ruínas. Andou com os pés secos pela passagem renascida. Lamentou. Mas otimista, à Folha ela lançou a sua profecia: “Acredito que recupera, sim. Vai voltar as águas e o Pontalete ficará bonito outra vez”.

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