Conheça a seção eleitoral mais isolada do Brasil

Por brasil

FABIANO MAISONNAVE, DE SÃO PAULO

A eleição de 2012 foi trágica para Atalaia do Norte (AM), município a 1.036 Km de Manaus.

Semanas antes do turno único, cerca de 1.200 indígenas foram ludibriados em diversas aldeias pelo Vale do Javari para viajar até dez dias de barco e votar, entre promessas de pagamento de gasolina e de presentes.

Na cidade, que tem apenas 7.000 habitantes no centro urbano, eles ficaram acampados em condições insalubres. Finda a votação, não receberam o combustível prometido para regressar às aldeias e acabaram vítimas de um surto de rotavírus.

“Ele vieram votar e não tinham onde ficar. No dia seguinte à eleição, houve um surto de diarreia e vômito transmitido pelas condições insalubres. Cinco crianças morreram e mais de 100 pessoas foram internadas”, lembra, em conversa por telefone, o coordenador regional da Funai em Atalaia do Norte, Bruno Pereira.

“Foi preciso fazer uma barreira sanitária nas terras indígenas, para os índios não levarem o surto pra dentro das aldeias”, completou Pereira. A crise durou semanas para ser resolvida.

O aliciamento e as mortes provocaram uma investigação da Polícia Federal, e ao menos um ex-prefeito da cidade foi indiciado. O processo tramita em segredo de Justiça.

Para evitar uma situação semelhante, o Tribunal Regional do Amazonas e a Funai elaboraram para este ano um complexo esquema logístico de votação em seis aldeias do Vale do Javari.

Índios matses observam a chegada de helicóptero à aldeia Lobo, no município de Atalaia do Norte (AM) - Foto de Ester Maia - 5.out.2014/Funai
Índios matses observam a chegada de helicóptero à aldeia Lobo, no município de Atalaia do Norte (AM) – Foto de Ester Maia – 5.out.2014/Funai

Até o final do segundo turno, os aviões e helicópteros contratados para o deslocamento de material e funcionários terão percorrido um total de 9.317 km em quatro rotas.

O título de seção eleitoral mais distante do Brasil ficou com a aldeia Vida Nova, que registra 243 eleitores da etnia marubo, a 349 km em helicóptero de Atalaia Norte _por rio, a distância sobe para cerca de 1.000 km.

Indígena kanamari registra digitais na aldeia São Luís, no município de Atalaia do Norte (AM) - Foto de Ester Maia - 5.out.2014/Funai
Indígena kanamari registra digitais na aldeia São Luís, no município de Atalaia do Norte (AM) – Foto de Ester Maia – 5.out.2014/Funai

A urna usada de Vida Nova viajou por avião de Manaus a Atalaia do Norte. No primeiro turno, foi de helicóptero à aldeia e depois recolhida novamente em Atalaia do Norte, operação que se repete neste domingo. No final, terá percorrido 3.468 km.

Para cada aldeia, são deslocados um técnico de transmissão a serviço do TRE-AM e um presidente de mesa, que é funcionário da Funai ou da Secretaria Especial de Saúde Indígena (Sesai), do Ministério da Saúde.

De acordo com o TRE-AM e a Funai, a operação foi um sucesso no primeiro turno ao evitar nova compra de votos e o difícil deslocamento até Atalaia do Norte.

Logística aérea TRE-AM - Eleições 2014 - O helicóptero azul com círculo amarelo mostra a localização da aldeia Vida Nova, a mais distante do Brasil
Logística aérea TRE-AM – Eleições 2014 – O helicóptero azul com círculo amarelo mostra a localização da aldeia Vida Nova, a mais distante do Brasil

Siga o blog Brasil no Twitter (@Folha_Brasil) e no Facebook (www.facebook.com/BlogBrasil)