E se o Piauí ficasse na China?

Por brasil

FABIANO MAISONNAVE, EM GUARIBAS (PI)

Ambos países emergentes, Brasil e China vêm adotando, nas últimas décadas, caminhos opostos para o desenvolvimento. Aqui, a prioridade é criar um Estado de bem-estar social. Lá, os asiáticos focam em infraestrutura e em inovação.

Na China, um país nominalmente comunista, não existe atendimento médico gratuito _mesmo em hospitais públicos, paga-se até por um band-aid. “Eles têm um programa de astronautas, o Brasil tem o SUS”, resume Marco Antonio Raupp, então presidente da AEB (Agência Espacial Brasileira), em entrevista concedida a este repórter em Pequim, em 2011.

A comparação de Raupp, que logo depois se tornaria ministro da Ciência (deixou o cargo em março), ilustra bem a diferença entre os dois modelos. No Brasil pós-Constituição de 1988, o Estado de bem-estar social é prioritário, e o crescimento econômico financia a ampliação contínua desses benefícios.

Na China, é o contrário: a rede de proteção _incluindo aí a aposentadoria_ só deve ser criada após certo grau de desenvolvimento econômico. Para ficar ainda mais claro: o que é o ponto de partida aqui está mais para o ponto de chegada lá.

O Orçamento dos dois países torna essa diferença eloquente. No Brasil, os gastos públicos com saúde e com proteção social chegaram respectivamente a 5,79% e a 15% do PIB. Na China, os percentuais para as mesmas rubricas são 1,27% e 5,56%, segundo o Relatório da Proteção Social Mundial 2014/2014, da Organização Internacional do Trabalho, com dados de 2010.

As posições se invertem na comparação da taxa de investimento (inclui desde importação de máquina industrial até construção de infraestrutura). No Brasil, em 2013, a rubrica representou 18% do valor do PIB. Na China, chegou a 49% para o mesmo ano, segundo dados oficiais compilados pelo Banco Mundial.

A enorme diferença entre os dois modelos me voltou à cabeça alguns dias atrás, quando conheci Guaribas (648 km de Teresina), no semiárido do Piauí. A pequena e pobre cidade ganhou fama nacional em 2003, no início do governo Lula, por ter sido a primeira a abrigar o programa Fome Zero, logo transformado em Bolsa Família.

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Onze anos depois, a cidade está muito melhor do que era, segundo os moradores. A grande maioria é beneficiada pelo Bolsa Família, que paga, em média, R$ 224 por família. Trata-se de uma ajuda vital em uma cidade em que os empregos praticamente se limitam aos da prefeitura e onde a principal atividade, a agricultura, enfrenta quatro anos seguidos de seca.

Nos últimos anos, a cidade de cerca de 6.000 habitantes recebeu ainda outras benfeitorias. Os moradores do centro, que em 2003 tinham de subir uma serra para matar a sede em uma pequena nascente, hoje contam com abastecimento em suas casas. Há unidades do Minha Casa, Minha Vida em construção, e a cidade conta com uma médica cubana do Mais Médicos.

Por outro lado, a cidade ainda espera a obra mais importante para se viabilizar economicamente: o asfaltamento de 54 km de uma estrada precária, obra prometida há 11 anos, em 2003, quando do lançamento do Fome Zero. As obras teriam começado neste ano, mas não tem data para terminar.

Além da rodovia, também seriam necessárias outras obras: um acesso ao distrito de Cajueiro, distante 30 km do centro. Ali, vivem cerca de 1.500 pessoas sem água encanada. Boa parte delas passa o dia em viagens até a fonte, distante até 4 km das casas mais distantes.

Guaribas, no Piauí - Foto de Danilo Verpa/Folhapress
Guaribas, no Piauí – Foto de Danilo Verpa/Folhapress

O isolamento e as quatros safras seguidas prejudicadas pela seca fazem com que o Bolsa Família continue sendo a principal fonte de renda de Guaribas. Quase todas as famílias estão inscritas no programa, já recebendo ou ainda à espera do benefício.

A China, onde fui correspondente por três anos, também tem o seu “Nordeste” no desértico meio-oeste do país. Um dos “Estados” é a Região Autônoma de Ningxia, que visitei em 2012.

A primeira impressão é de surpresa com a quantidade de obras em construção ou recém-inauguradas: aeroporto, ferrovias, um enorme centro de convenções, estradas e transporte público urbano.

Quase todos estavam visivelmente subutilizados, à espera de um desenvolvimento que não se concretizou plenamente. Mas esforço vem dando seus primeiros frutos, notadamente as centenas de empresas privadas voltadas à produção de alimentos halal, preparado de acordo com o rito muçulmano.

Mas Ningxia tem problemas, principalmente o da desertificação. Anos de uso inadequado de recursos hídricos resultaram na expulsão de dezenas de milhares de agricultores, que agora tentam a sorte em centros urbanos, a maioria subempregados. Se, ainda por cima, não conseguiram o hukou (sistema de registro de moradia) na cidade onde vivem, seus filhos não têm direito sequer à escola pública.

No geral, a vida em Piauí e em Ningxia melhorou nas últimas décadas. Com estratégias diferentes, China e Brasil se orgulham de ter alavancado milhões de seus habitantes da pobreza extrema, embora se envergonhem da enorme desigualdade social.

À primeira vista, a China leva vantagem: neste ano, crescerá 7,4% do PIB, enquanto o Brasil amargará um incremento de 0,3%, segundo projeções recentes do FMI.  Mas não se trata de um simples gráfico. Variáveis como meio ambiente, matriz energética e regime político certamente terão influência para completar o salto da renda média para a alta, proeza que pouquíssimos países conseguem.

Separados por milhares de quilômetros de distância, Piauí e Ningxia sofreram com a fome, enfrentam o problema da seca e tentam encurtar o abismo econômico que os segregam dentro dos próprios países. Qual a melhor estratégia? Taí uma pauta que gostaria de fazer em 2030.

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