Fobia, vidros quebrados e falta de respostas após a tragédia de Santos

Por brasil

PAULA SPERB, EM SANTOS (SP)

Duas semanas depois da queda do avião em Santos (SP), o blog “Brasil” visitou os moradores de casas e apartamentos afetados pelo acidente.

As famílias do conjunto de prédios da rua Vahia de Abreu, número 58, aguardam as providências para pequenas ou grandes reformas pagas pelo seguro do imóvel. Situação diferente dos vizinhos das casas 111, 113 e 115 da rua Alexandre Herculano, que não possuem seguro e ainda não normalizaram a rotina. Abaixo das fotos, as histórias de alguns deles:

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Os latidos da cadela Preta não ecoam sem um pedido de desculpas da proprietária, Odessa da Silva Fonseca, 73. “A cachorra era calminha, ela ficou assim depois do acidente, mas não morde”, conta.

Odessa está traumatizada desde a queda do jatinho que transportava Eduardo Campos e outras seis pessoas. “Eu estava no banho quando trovejou. Pensei: ‘Meu Deus do céu, será outro avião?”, conta.

O medo é justificável. Por ali passam diversos helicópteros e aviões ao longo do dia.

O barulho também assusta o neto de Odessa, Leonardo da Silva Fonseca, 25. No momento da queda, uma grande pedra invadiu seu quarto, quebrando a janela e a parede, e caiu em cima da sua cama.

“Eu estava na cama e levantei para atender o telefone segundos antes”, diz Leonardo. “Ele nasceu de novo”, diz a avó.

Leonardo já foi à igreja duas vezes para agradecer por ter escapado ileso.

A pedra foi retirada do local com a ajuda de cinco homens. Agora, no apartamento deles, quatro pessoas dormem no mesmo quarto, porque os outros estão com as janelas quebradas e com buracos nas paredes.

“Até agora a gente está aguardando para ver o que vai acontecer”, diz Odessa. Eles não receberam nenhum auxílio. Quando chove, a casa fica molhada. Com o impacto da pedra, televisão e geladeira estragaram.

Moradora há 30 anos do prédio, Almerinda Batista Pinto, 85, já gastou mais de R$ 3.000 reais em reformas. “Tudo tem um limite na vida. Tenho mais o que fazer do que ficar recebendo gente para fazer orçamento”, queixa-se.

Para conseguir o ressarcimento da seguradora, a cada troca de fechadura ou vidros, ela precisa apresentar três orçamentos.

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“Estamos em uma situação bem crítica. Não tenho seguro”, diz Benedito Juarez Câmara, 69, dono da academia atingida.

A queda afetou a estrutura das piscinas, equipamentos de ginástica e o que mais preocupa o educador físico: os aparelhos desenvolvidos na USP para alunos especiais.

Câmara está preocupado com os alunos que precisam de acompanhamento em situações pós-cirúrgicas, por exemplo.

Ele conseguiu ajuda de outra academia para receber seus professores e alguns alunos. “Tenho 16 famílias que dependem de mim”, diz sobre os funcionários.

Vizinha, Wanda Maria Pettinati Homem de Bittencourt, 49, também não tem seguro. Em 15 dias, ela já se mudou de casa três vezes. Sua maior preocupação é com seu pai, 86, e sua mãe, 75.

“Imagina ver sua casa pegando fogo e depois dormir de colchão e colchão? Eles estão traumatizados”, conta a advogada.

“Mas perdi o medo de tudo. Se for seu dia, acontece”, diz.

Responsável pela casa ao lado, Claudete S. Shiroma Fugii, 62, não reconhece mais o espaço onde morava.

O jardim foi destruído com a queda. A operação de busca por corpos e destroços “limpou” o terreno.

Agora, só há areia colocada ali pela prefeitura. Sua mãe e sua tia, que estavam em casa quando o avião caiu, estão morando no seu apartamento.

“Alguém precisa se responsabilizar”, diz. A casa também não tinha seguro. Novas telhas foram colocadas na casa para que a chuva não estragasse ainda mais o imóvel.

Os três cágados octogenários da família, que estavam no pátio onde caiu o avião, também escaparam do acidente e foram resgatados dias depois.

Os três moradores receberam a visita do irmão de Eduardo Campos, Antônio Campos, na última quarta-feira (27).

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