A morte de Eduardo Campos: relatos de uma cobertura

Por brasil

Correspondentes da Folha na região Nordeste, Daniel Carvalho (Recife), João Pedro Pitombo (Salvador) e André Uzêda (Fortaleza) integraram a equipe do jornal que cobriu os funerais do ex-governador Eduardo Campos (PSB), morto em acidente aéreo em 13 de agosto.

Enquanto Carvalho e Pitombo acompanharam os fatos do Recife, Uzêda foi enviado ao interior de Pernambuco para descrever a reação de moradores do sertão diante da morte, para depois se juntar à equipe na capital.

Abaixo, os repórteres fazem um relato pessoal sobre as dificuldades e sentimentos diante de uma cobertura de elevada carga emocional:

‘Foi difícil segurar o choro’, por Daniel Carvalho

Estava no aeroporto quando o chefe de reportagem da Agência Folha, Luis Eblak, me telefonou: “Daniel, caiu um helicóptero em Santos e parece que o Eduardo Campos estava dentro”.

Pensei que era uma piada sem graça. Eduardo –ele detestava ser chamado de Campos por jornalistas– estivera horas antes no “Jornal Nacional”, pensei.

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O repórter Daniel Carvalho usa capa de chuva para se proteger do sol ao redigir durante velório de Campos – Foto: Emídia Felipe/Arquivo pessoal

Aos poucos, informações foram surgindo . Não era um helicóptero, mas um avião. E, além do ex-governador, dois queridos amigos, o jornalista Carlos Percol e o fotógrafo Alexandre Severo, estavam a bordo.

Há um ano, confraternizava em São Paulo com Severo, meu antigo parceiro de pautas no Recife. Há quatro meses, estava com Percol no ápice da felicidade, em seu casamento com Cecília Ramos. Há algumas semanas entrevistava o ex-governador, uma experiência sempre interessante.

Os últimos cinco dias foram exaustivos não só fisicamente, mas também –e talvez sobretudo– emocionalmente.

Foi o tipo de cobertura em que foi impossível separar o pessoal e o profissional. Foi difícil segurar o choro.

Poucas horas de sono, falta de tempo para comer, sol na cabeça, mosquitos picando e assalto a mão armada –sim, fui assaltado durante a cobertura– não tiveram a dimensão do desgaste emocional de escutar Cecília falar do amor por Percol e de ouvir a mãe de Severo dizer que, na próxima encarnação, quer tê-lo como filho mais uma vez.

A noite deste domingo (17), quando escrevo este depoimento, vai ser a mais difícil, porque agora a ficha começa a cair.

‘A reação do povo comove’, por João Pedro Pitombo

Se a morte de um político no auge impressiona, ver de perto a reação do povo comove.

O sentimento do público diante da perda de um político que soube construir suas marcas parecia, de fato, genuíno.

O povo sabia na ponta da língua os nomes dos seus principais programas: Chapéu de Palha, Pernambuco Conduz, Atitude, Ganhe o Mundo, marcas de Campos que parecem enraizadas no imaginário local.

O impacto da perda era claro, por exemplo, pelos becos da Ilha de Deus, comunidade de palafitas no Recife. No cortejo até o cemitério, o estereótipo do pernambucano “cabra-macho” cedia lugar a homens chorando como crianças. E quando o povo cantou em uníssono “Madeira de Rosarinho”, hino da resistência pernambucana.

Olhar nos olhos dessas pessoas foi o mais difícil.

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‘Mas você tem certeza que ele morreu mesmo?’, por André Uzêda

A morte de Eduardo Campos me levou ao interior de Pernambuco um dia depois do episódio. Logo no dia seguinte pisei em Granito, cidade que deu 99% dos votos a Campos em 2010.

Quando cheguei tive a impressão de estar numa vila fantasma. Escola e prefeitura fechadas e a grande feira da cidade às moscas. Além de um incômodo silêncio.

Soube que na véspera do acidente moradores haviam se reunido em bares para ver a entrevista do candidato ao “Jornal Nacional”.

Em conversas na última quinta (14), falavam sobre a “ficha” que não caíra e sobre a “dor da perda”.

A cozinheira Maria Helena Xenofonte, 34, me impressionou. Em um momento da entrevista ela interrompeu a fala, mirou-me nos olhos e perguntou: “Mas você tem certeza que ele morreu mesmo?”

Dois dias depois de  Granito embarquei numa caravana que saiu de Ouricuri (a 60 km de Granito) para acompanhar os funerais no Recife, distante mais de 600 km. Foram 12 horas de viagem até lá.

Após horas de estrada e um defeito no ônibus que nos deixou à beira da estrada por 40 minutos, alguns servidores municipais se sentiam à vontade para dizer que estavam ali por orientação do prefeito.

Outros pareciam tão curiosos como o repórter e lançavam questões sobre o ofício de jornalista. Emprestei meu bloco para o pequeno Uadson, 6, rabiscar seus desenhos. Perguntei a ele quem era Campos. Ele encolheu os ombros e disse, meio sem jeito: “Sei não. Mas estou indo conhecer o Recife por causa dele”.

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