Mortes sem resposta: conheça histórias das mulheres de Goiânia

Por brasil

JULIANA COISSI E ESTÊVÃO BERTONI, DE SÃO PAULO

Uma piauiense que vivia para o filho, uma jovem que se formaria em 2016 em contabilidade, outra que planejava ser veterinária. Sonhos de vida interrompidos em Goiânia neste ano por mortes violentas, misteriosas e ainda não explicadas —em todos os casos, o autor foi um homem que usava moto e que quase sempre foge sem levar nada.

Já são ao menos 15 mulheres, com idades entre 13 e 29 anos, mortas na capital de Goiás desde janeiro, numa série de crimes que intriga a polícia e amedronta a população.

Dois suspeitos foram presos entre sexta-feira (8) e sábado (9), mas negam envolvimento com os crimes.

O blog traz detalhes das histórias de algumas dessas vítimas:

Rosirene Gualberto da Silva, 29

Rosirene, penúltima de 12 filhos nascidos em Flores do Piauí (PI), chegou ainda adolescente a Goiânia, para morar com os irmãos.

Logo se casou, e da união nasceu William, hoje com 11 anos. A vida da piauiense era voltada ao trabalho, como vigilante de um supermercado, e ao filho, lembra a cunhada Marisangela Santos, 41.

Separada havia dois meses, gostava de ir ao forró aos finais de semana com uma das irmãs, como ocorreu no dia 19 de julho. As duas estacionavam o carro e nem haviam saído do veículo quando Rosirene foi baleada por um homem em uma moto.

Na descrição da irmã, o assassino era um homem branco, magro e alto, com sobrancelhas grossas —a única característica que conseguiu notar através do capacete escuro que ele usava.

Semanas antes do crime, sem saber, Rosirene “despediu-se” dos pais, quando visitou sua cidade natal, no Piauí.

A perda da mãe ainda é recente –menos de um mês–, e o filho único vive hoje com o pai, em outra cidade goiana.

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Juliana Neubia Dias, 22

Juliana deixou Itapaci (GO), a 220 km de Goiânia, há  três anos, para estudar contabilidade na capital. Logo conseguiu emprego como auxiliar administrativa numa construtora. Trabalhava de dia e estudava à noite. “Ela sempre trabalhou, desde os 14 anos, em padaria e lojas de roupas, para ajudar minha mãe”, lembra a irmã, Mirian, 24.

Seu plano era se formar e voltar para a terra natal. Considerava Goiânia perigosa. Em Itapaci, deixara a mãe, dona de casa, o pai, funcionário aposentado da fábrica de biscoitos Mabel, dois irmãos e dois sobrinhos, por quem era muito apegada. Vivia levando presentes para as crianças, conta a irmã.

No dia 22 de julho, uma terça-feira, fez 22 anos e combinou de ir na sexta seguinte comemorar a data com uma amiga de infância e o namorado, num restaurante perto da quitinete onde morava. Fazia apenas duas semanas que havia começado o namoro.

Quando o carro dirigido pelo namorado parou em um semáforo, um motociclista armado aproximou-se do veículo e, sem dizer nada, disparou duas vezes contra Juliana, que mexia no celular no momento do crime. Ela morreu com um tiro no pescoço e outro no tórax.

Juliana iria se formar em janeiro de 2016. O corpo foi enterrado em 27 de julho, em Itapaci.

Wanessa Oliveira Felipe, 22

“Mããããe, cadê você?” O chamado carinhoso da filha Wanessa, gravado no celular, é ouvido quase todos os dias pela ex-funcionária pública Sandra Oliveira Felipe, 46.

Na verdade, em seu coração, é Sandra quem faz o mesmo apelo, procurando por Wanessa, desde que a jovem morreu a tiros, em 23 de abril.

Desde então, a rotina de Sandra é passar o dia pensando na caçula de três filhos. Ao acordar, assiste a missa pela TV. “Rezo por ela, para que ela esteja bem, com Deus”.

Ao longo do dia, por vezes, conecta o pen drive na TV para repassar, uma a uma, as fotos da filha sozinha ou com a família. “Fico cercada de fotos dela.”

Além de ouvir as gravações de voz deixadas pela filha, Sandra também a ouve cantar.

Para o irmão do meio, Wanessa havia cantado a capela e enviado pelo aplicativo a canção “Te Esquecer é Impossível”, de Chitãozinho & Xororó.

Na entrevista por telefone, a mãe canta um pedaço. E faz questão de enviar a gravação para a repórter —para que conheça a voz de Wanessa.

Sandra cita planos da filha, num lembrete que a menina anotou na parede do quarto: “Procurar cursinho”. Apaixonada por animais, ela queria se tornar veterinária. O quarto, aliás, está intocado, assim como a jovem o deixou, enfeitado com almofadas coloridas e bonecas.

Bruna Gleycielle de Sousa Gonçalves, 27

A cuidadora de idosos Marlene Bernardete, 53, não desgruda os olhos da TV. Sua esperança em ter novidades sobre o assassino da filha vem de um programa policial local.

Ela interrompe a conversa com o blog para acompanhar a notícia da prisão de um suspeito em Mato Grosso. Horas mais tarde, a Polícia Civil de Goiás negaria as informações divulgadas pelo programa.

Marlene continua sem resposta sobre a morte de Bruna, em 8 de maio deste ano, num ponto de ônibus. Recepcionista de academia, ela saía do trabalho num shopping da cidade, às 22h, e só estava naquele ponto –onde recebeu um tiro no peito de um motociclista que pediu seu celular– porque ouviu boatos de arrastões no ponto que costumava a usar.

O criminoso não levou nada. Atirou antes que Bruna conseguisse lhe entregar o aparelho.

Cantora de uma banda da igreja evangélica Ministério Esperança, que frequentava em Goiânia, fez curso técnico em segurança do trabalho porque é exigência para ingresso na Polícia Militar. Não passou nos exames e desistiu do sonho de ser PM.

Queria tentar o vestibular para educação física, pois dizia que personal trainer ganha muito dinheiro. Prometia colocar forro na casa da mãe, onde morava com o filho pequeno havia seis anos, após se separar do marido. No mesmo local ainda moram um tio, o irmão, a cunhada e um sobrinho.

Cristiano, o filho, hoje tem sete anos. Marlene, a avó, agora será também sua mãe.

Isadora Aparecida Cândida dos Reis, 15

As boas notas na escola garantiram neste ano R$ 1.200 a Isadora. É o valor do prêmio Poupança Aluno, que ganhou do governo de Goiás por seu desempenho em uma prova. Não teve, porém, tempo de receber.

Campeã de capoeira, esporte que praticava desde os quatro anos, ao lado da mãe, Maria Aparecida, a adolescente dividia seus dias entre a escola, estudos em casa e aulas à noite na academia do mestre Passo Preto. Mal saía de casa, como lembra o irmão Giovanni, 17.

O pai, Gilmar, dono de uma oficina, era muito protetor, e só tinha autorizado a filha a iniciar um namoro há pouco tempo. Isadora e Clayton, 18, viam-se apenas aos fins de semana. Foi num domingo, 1º de junho, que a jovem teve autorização do pai para ir almoçar na casa do namorado.

Quando voltava a pé para casa, na companhia do rapaz, foi parada por um criminoso que desceu de uma moto. “Pode levar o celular, mas não machuque ela”, disse o namorado, segundo relato de parentes da jovem. Ao entregar o aparelho, o motociclista afastou seu braço, virou-a e atirou em suas costas, fugindo em seguida. O celular ficou no chão.

Giovanni, o irmão, conta que, três dias após o crime, foi com o pai à delegacia atrás de notícias. Ouviram, segundo ele, que “a polícia não tem bola de cristal” e que encontrar o assassino poderia demorar um mês, um ano ou nunca ocorrer. Indignado, Gilmar, o pai, respondeu que, se também tivesse bola de cristal, nunca teria deixado a filha sair de casa.

Ana Maria Duarte, 26

“Com um tiro só, ele [criminoso] matou meus pais, eu, meu irmão. Acabou com a vida da gente. Só um milagre mesmo para a gente se reestruturar”, diz Lívia Fiori, 34, formada em direito e há 14 anos na Polícia Civil.

Ela trabalha na investigação da morte da irmã, Ana Maria. Em 14 de março, a assessora parlamentar do deputado estadual Hélio de Sousa (DEM) estava numa lanchonete com o namorado e uma amiga. Um motociclista desceu e pediu os celulares dos três à mesa. Ana Maria disse que não tinha o aparelho. Ficara em casa, carregando. Foi baleada no peito. O criminoso fugiu sem levar nada.

Lívia trabalha há quase cinco meses sem descanso na tentativa de solucionar o crime. “Ela não dorme, coitada, está alucinada, investigando e colaborando com a polícia. A gente tem que encontrar esse indivíduo”, diz o pai, Uigvan Duarte, 61, ex-delegado, promotor de Justiça aposentado e atual chefe de gabinete da Prefeitura de Goianésia (GO), a 172 km de Goiânia.

Na semana passada, ele ofereceu recompensa de R$ 10 mil para quem ajudar a Polícia Civil a chegar ao assassino. “Nós tínhamos decidido há muito tempo [dar a recompensa], mas segurou um pouco para não atrapalhar a investigação. Agora que estamos nesse desespero, sem ver resultado positivo, apesar de confiar no trabalho da polícia, divulgamos a recompensa. Às vezes, um bandido entrega o outro por pouca coisa. Nossa esperança é essa.”

Lívia diz já ter visto outros casos de recompensas que funcionaram. “Ana Maria era muito especial e amada para a gente deixar ao descaso. Estou lutando. O que depender de mim, vou fazer.”

Beatriz Cristina Oliveira Moura, 23

A aposentada Orestina Rodrigues, 61, ainda se lembra de ver a sobrinha-neta Beatriz passando pelo seu portão minutos antes de ela ser morta. “Eu regava as plantas de manhã quando a vi na rua, indo para a padaria. Ela disse: ‘Oi, tia. Bença [sic]’. Logo depois ouvi o tiro. Jamais pensaria que fosse ela.”

Para Orestina, a memória de Beatriz é a de uma jovem quieta, caseira, que amava os três sobrinhos dos quais cuidava e mais ainda os avós –como perdeu a mãe ainda criança, para Beatriz, seu Manoel e dona Domingas eram “pai Mané” e “Mainha”.

Lilian Sissi Mesquita e Silva, 28

Lilian já havia formado sua família. Mas mesmo após 11 anos de convivência com o companheiro, ainda sonhava em se casar, na igreja.

Quando ela cobrava a formalização da relação, o mecânico Carlos Valczak, 34, desconversava. “Eu brincava com ela, que muita gente que casa rapidinho separa, que estava bom assim”, diz.

Dona de casa, Lilian vivia para a família. Cuidava dos dois filhos do casal, de dez e seis anos de idade.

Vaidosa, não dispensava maquiagem e os longos cabelos loiros arrumados até ao buscar os filhos na escola, como no dia em que foi morta, em 3 de fevereiro.

Valczak diz ter perdido 11 kg desde a perda da mulher. Por vezes, as crianças ficavam caladas, no canto. Chamam pela mãe.

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