‘Via Calma’ quer convivência amigável entre pedestres, motoristas e ciclistas

Por brasil

ESTELITA HASS CARAZZAI, DE CURITIBA

São 11 horas da manhã de uma quinta-feira em Curitiba. Numa das avenidas centrais da cidade, a Sete de Setembro, agentes de trânsito distribuem panfletos com orientações a motoristas.

O desafio é fazê-los respeitar a via compartilhada com ciclistas, implantada há quase dois meses, que transformou a rua na primeira “Via Calma” do país.

A velocidade, agora, é limitada a 30 km/h, há apenas uma faixa para carros em cada sentido, e próximo à calçada o espaço, delimitado por faixas brancas, é preferencialmente da bicicleta. Pelo meio, como sempre foi, circulam os ônibus biarticulados, numa via exclusiva.

“Eu não quero essa m…”, diz um motorista, ao ver a agente estendendo a mão com o folheto. “Isso só piorou o trânsito.”

A agente faz que não ouviu. “A gente ouve cada desaforo”, comenta. “Agora melhorou, mas no começo era só reclamação.”

Considerada inovadora pela prefeitura, que quer obstinadamente retomar a tradição de pioneira em planejamento urbano, a Via Calma pretende diminuir a agressividade do trânsito e promover a convivência amigável entre pedestres, motoristas e ciclistas.

X

É um desafio e tanto na capital mais motorizada do país ““há 1,8 pessoa por carro em Curitiba. São pouco mais de 1 milhão de automóveis nas ruas.

“O carro é que nem gás: você abriu espaço, ele ocupa”, diz o presidente do Ippuc (Instituto de Pesquisa e Planejamento Urbano de Curitiba), Sérgio Pires. “Estamos propondo uma mudança de paradigma. Queremos humanizar a cidade.”

‘VIA LENTA’

A iniciativa foi aplaudida por especialistas em mobilidade, que ressaltam a necessidade de dar visibilidade ao pedestre e ao ciclista.

Além de promover a convivência entre diferentes modais, a Via Calma, afirmam, tem o mérito de tirar os ciclistas das vias exclusivas para ônibus, por onde eles costumavam circular, diminuindo o risco de atropelamento.

Mas há críticas, especialmente dos motoristas. Eles reclamam de lentidão e já apelidaram a avenida de “Via Lenta” ou “Haja Calma”.

Com a circulação de automóveis restrita a uma faixa, começou a haver engarrafamentos e bloqueios nos cruzamentos, especialmente nos horários de pico. Moradores do entorno reclamam que passaram a ouvir buzinas o dia inteiro, e que as avenidas paralelas ficaram mais congestionadas.

“A Via Calma deixa todo mundo nervoso”, diz o professor Robson Luiz Schiefler, que dá aulas numa universidade próxima.

Há até um “meme” na internet, com críticas ao prefeito Gustavo Fruet (PDT): “Fruet, o mago. De uma vez, conseguiu piorar o caos em três das principais vias de Curitiba”.

“A única coisa que eu falo é: se você está com pressa, não venha por aqui”, comenta uma agente de trânsito. “Aqui o limite é 30 km/h. Vai ser mais devagar, mesmo.”

PARTE DO JOGO

Para a prefeitura, as críticas são comuns a projetos inovadores ““como ocorreu quando o então prefeito Jaime Lerner fechou a Rua XV, em 1971, criando o primeiro calçadão do país. Motoristas planejaram uma carreata para destruir a calçada, mas a prefeitura chamou crianças para pintarem cartolinas no local, o que acabou impedindo o protesto.

“O que a gente deveria fazer? Desapropriar e dar mais espaço para o carro? Aí vamos virar uma Los Angeles”, diz Pires, do Ippuc. “Foi uma atitude corajosa. Vai lá, faz e vamos ver.”

Mesmo os mais críticos reconhecem que a situação já foi pior. Com o passar dos dias, segundo motoristas e pedestres ouvidos pela Folha, diminuíram os engarrafamentos, provavelmente em função do uso de ruas alternativas, e a maioria dos motoristas obedece a faixa preferencial.

“Eu achei uma boa ideia. Aqui [na faixa preferencial], estou no meu direito de circular. E os motoristas estão respeitando mais”, diz o professor e ciclista José Alfredo Berton, 33, que usa a avenida todos os dias para trabalhar.

Alguns ciclistas acham que a prefeitura deveria instalar tachões no chão, para delimitar a faixa preferencial, mas o município quer “dar a chance aos curitibanos de demonstrarem que não precisam deles”.

Outros reclamam que querem uma “ciclovia de verdade”, e não uma faixa compartilhada. “Ciclovias decentes deveriam fazer parte do plano diretor da cidade. Na boa, isso que fizeram é jeitinho”, diz o corretor de imóveis Luiz Pacheco. Há bueiros que ficam no meio da faixa preferencial na Via Calma, por exemplo.

A prefeitura afirma que criou um Plano Cicloviário, e pretende implantar 300 km de “vias cicláveis” até 2016. Desses, 130 km serão vias ou faixas exclusivas para bicicletas.

Ainda neste ano, o município pretende implantar a Via Calma em outras ruas de Curitiba com a mesma configuração, como a avenida João Gualberto e a rua Padre Anchieta.

Siga o blog Brasil no Twitter: @Folha_Brasil