A Copa no barracão com desabrigados pelas chuvas: ‘Dá uma distraída’

Por brasil

ESTELITA HASS CARAZZAI, DE UNIÃO DA VITÓRIA (PR)

O barracão é simples. Lonas fazem as vezes de paredes e organizam o local onde dormem cerca de 60 pessoas. As mulheres preparam o café da tarde e começam a estourar a pipoca. São quase 16 horas de terça-feira (17).

“Agora vamos sofrer um pouquinho”, diz um dos moradores, puxando o banco e o café na direção da TV ligada.

Nas próximas duas horas, o jogo do Brasil contra o México pela Copa concentraria as atenções dessas 15 famílias num abrigo de União da Vitória, no sul do Paraná.

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Elas estão desabrigadas desde que uma chuva histórica elevou o nível do rio Iguaçu, que corta a cidade, em quase seis metros, desalojando 12 mil pessoas –ou um quinto da população local.

A maioria está lá há quase dez dias, quando começou a chover na região. Até hoje, o rio Iguaçu não baixou –pelo contrário, subiu, chegando ao recorde de 8,13 metros no início desta semana.

“Lá na minha casa, a água está na altura da porta”, diz Osmar França de Camargo, 57, mestre de obras e atual coordenador do abrigo. Sua casa fica a cerca de 800 metros do leito do rio. Mesmo assim, foi atingida pela enchente.

“Eu estava com a Defesa Civil no telefone, e eles me garantiram que o rio não ia chegar. Quando desliguei, olhei para fora e vi o bueiro com a tampa aberta, transbordando. Saí na hora.”

Dez dias depois das primeiras chuvas, 40% da área urbana de União da Vitória continua embaixo d’água. Há 500 pessoas em abrigos municipais, como o visitado pela reportagem da Folha.

Entre uma tarefa e outra, como receber donativos e organizar a pauta da reunião diária, Osmar dá uma olhada na televisão. O jogo ainda está 0 a 0.

DISTRAÇÃO

“É bom porque dá uma distraída. A Copa veio em boa hora”, afirma o pedreiro Alceu dos Santos, 53, vestido com a camisa do Brasil e quase roendo as unhas de nervosismo.

Nem sempre foi assim. O primeiro jogo da Copa, comenta, ele nem assistiu. Havia chegado ao abrigo no dia anterior. Vira a casa ser engolida pela água e o mesmo acontecer a parentes e amigos.

“Não tinha nem clima. Nem cabeça. Agora é que está dando para aproveitar.”

Não é todo mundo que aproveita a partida com o mesmo entusiasmo. Alguns criticam o desempenho do time. “Esse cabelo novo do Neymar não está resolvendo nada”, diz uma garota. “Vai, México!”, provoca outro.

Outros, mesmo em frente à TV, falam pouco. A atmosfera é mais silenciosa que o normal para um jogo da seleção. Não há cornetas, gritos de torcida ou bandeiras. Talvez por causa do desenrolar da partida, que continua no 0 a 0; talvez pelo drama pessoal que todos vivem.

“Eu não queria sair da minha casa, mas estava muito perigoso”, diz o adestrador José Ferreira da Silva, 51, mais conhecido como Zé do Rodeio. “A água já estava chegando no segundo andar. E a casa é de madeira. A cada coisinha, ela se mexia. E se caísse, como fazia? Morria todo mundo.”

Zé, a mulher e os cinco filhos estão no abrigo há uma semana. Não sabem quando voltarão para casa.

Alguns desabrigados, à noite, ainda iriam voltar às casas alagadas, para dormir lá e evitar saques. “Aqui tem a vagabundagem também. Os larápios. Esperam a ronda da PM passar, pegam os botes e vão saquear”, conta Santos.

A Prefeitura de União da Vitória decretou toque de recolher para evitar roubos.

FUTURO

Nesta terça (17), pouco antes do jogo do Brasil, a cidade recebeu a visita da presidente Dilma Rousseff.

A prefeitura pediu investimentos como a construção de um canal no rio Iguaçu, para diminuir os níveis de enchente, e novas pontes, que evitariam o isolamento de partes da cidade, como ocorreu agora.

Dilma disse ter ficado “estarrecida” com o que viu e prometeu analisar os pedidos. “O rio rompeu as margens. Você não sabe onde é rio e onde é cidade. Tem apenas tetos aparecendo.”

A presidente não visitou os desalojados; apenas sobrevoou a cidade. Poucos dos abrigados sabiam que ela estivera lá.

No final do 0 a 0, o grupo recolhia os copos de café e de pipoca. Pouco antes das 18h, um barulho de chuva ecoou pelo barracão.

“Ixi. Tomara que nossa sorte mude logo. Na chuva e no jogo”, comentou Santos, ainda com a camisa do Brasil.