A ex-prostituta Gabriela, 16, desabafa: “Tinha vergonha de tirar a roupa”

Por brasil

ANDRÉ UZÊDA, EM QUIXADÁ (CE)

No interior do Ceará, em Quixadá (a 167 km de Fortaleza), a congregação das irmãs Camelianas comemorou na semana passada a assinatura da lei que torna crime hediondo a prática de exploração sexual infantil.

Essas irmãs fazem parte de um grupo católico, fundada por um padre italiano em 1989, que presta apoio a meninas e adolescentes em situação de risco, como casos de gravidez precoce, uso de drogas e vítimas da exploração sexual.

As meninas recebem apoio médico e têm cursos de corte e costura, informática e cabeleireira.

Em visita ao local, o blog conversou com algumas dessas meninas.

Uma delas é Gabriela (nome fictício), 16, que se prostituiu e usou drogas por cerca de um ano e meio em Quixadá.

Abaixo das fotos, o depoimento dela à Folha:

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“Eu morei com minha avó e meu pai desde que nasci. Mas todos dois me batiam muito. Eu era uma criança muito danada. Eu ia para a escola e batia em todas as meninas do colégio. Elas ficavam me xingando de preta e eu não gostava nada disso. Acabava batendo nelas e levando reclamação em casa. Lá, meu pai e minha avó davam o troco.

Apesar disso, eu era uma menina muito interessada em estudar. Estudei até o nono ano. Sempre gostei muito de ler. Forçava até as vistas lendo até mais tarde os livros que gostava. Minha avó cansava de reclamar comigo para ir dormir e largar os livros.

Um dia resolvi fugir de casa porque apanhei muito.

Toda vida fugia de casa e acabava voltando. Mas desta vez resolvi não voltar nunca mais. Fui morar com minha mãe biológica, que havia casado com outro homem. Tentamos ficar juntos, mas um dia o marido dela disse que só queria os filhos dele morando lá. Minha mãe preferiu ele. Fui morar na rua.

Morei um tempo na casa de amigas e outro tempo nas praças do interior. Lá comecei a ter contato com as drogas. Tinha então 15 anos. Comecei a usar maconha. Eu usava muita maconha. Eu ia nas bocadas comprar. Não tinha dinheiro e ficava perto das pessoas que tinham para conseguir um pouco.

Foi aí que conheci um amigo meu. Ele me disse que uns amigos dele queriam ficar comigo. E disse que essa era uma chance de eu ganhar dinheiro. Eu cobrei R$ 50. Fiquei com R$ 37, e meu amigo, com R$ 13. Foi a primeira vez que me prostituí.

Esse meu amigo disse que o valor ainda era muito pouco, e que eu arranjasse mais. Ele conseguiu outros programas para mim, e eu comecei a aumentar o valor. Passou para R$ 60, R$ 70. Ele também passou a ganhar uma comissão maior pelos meus programas.

Me sentia muito mal em vender meu corpo. Tinha vergonha de tirar a roupa e ficava chorando depois que terminava. Sabia que não precisava daquilo, mas queria o dinheiro para alimentar meu vício com as drogas. À essa altura, já usava crack e Rivotril (usado contra convulsão) misturado com cachaça.

Fui morar na casa desse meu amigo. Ele agenciava outras meninas menores de idade também, mas apenas eu morava com ele. À noite, eu e as outras meninas ficávamos na frente dos bares, esperando os clientes. Eram geralmente homens bem mais velhos. Alguns só queriam saber das novinhas. Já vinham procurando.

No fim do mês, esse meu amigo levava algumas das meninas para Fortaleza no carro dele. Ele nunca me levou. Dizia que eu era muito criança e que precisava ganhar mais experiência antes de ir, pois os homens de Fortaleza não admitiam erros.

Continuei usando muitas drogas e um dia percebi que cheguei no fundo do poço. Colocava sangue pelo nariz e pela boca. Usei tanto crack que desmaiei na praça. Acordei com dois homens desconhecidos mexendo no meu corpo. Tentei gritar e um deles pôs a mão na minha boca. Tive sorte que uma tia minha passava no local na hora. Ela gritou, ameaçou chamar a polícia e os homens fugiram.

Nesta mesma época, eu era muito humilhada na casa onde morava. Meu amigo dizia que eu não colocava nenhum dinheiro na casa. Não podia usar um perfume que ele reclamava. Estava chateada com tanta humilhação que um dia fugi.

Não tinha para onde ir e fui morar com um menino com quem estava namorando. Ele sabia que eu era prostituta e me aceitou do mesmo jeito. Pediu que eu procurasse ajuda e cheguei até o centro das irmãs Camelianas.

Aqui passei por tratamento e tem três meses que não uso crack e nem me prostituo. Mas ainda não larguei o cigarro. Fumo todo dia e quero largar. Aprendi curso de bordado e venho todo dia rezar com as irmãs.

Ainda estou morando com o mesmo menino. Mas ainda não sei o que vou fazer da vida. Penso em voltar para a escola, mas tenho vergonha do que vão falar de mim. Em cidade do interior todo mundo sabe o que a gente já fez um dia na vida. Vieram me dizer que minha avó e meu pai sabem o que me tornei. Sinto vergonha disso.

Aquele meu amigo já me procurou também algumas vezes para eu voltar para a prostituição, mas encontrei forças para negar. Ameacei denunciar ele no conselho tutelar, e ele parou de me procurar. Penso em voltar a estudar e um dia ser doutora. Mas logo me desanimo. Às vezes acho que joguei minha vida no lixo. Outras vezes, rezo e sinto forças para me recuperar. Ainda não sei o que fazer da vida.”